Emagrecimento

As canetas emagrecedoras realmente causam queda de cabelo?

As canetas emagrecedoras, também chamadas de "canetinhas", se tornaram uma das ferramentas mais usadas no tratamento da obesidade. Esses medicamentos pertencem à classe dos análogos do GLP-1 (e dos agonistas combinados de GLP-1 e GIP). Junto com os bons resultados, uma dúvida aparece com frequência no consultório: "Doutor, meu cabelo começou a cair. É por causa da caneta?"

As canetas emagrecedoras realmente causam queda de cabelo?

A resposta não é tão simples: a queda de cabelo não é um efeito direto do medicamento, e sim uma consequência da perda de peso rápida. Na maioria da vezes ela costuma ser temporária e tem tratamento. Mas existem situações que merecem investigação, e é isso que vamos explicar.

Com que frequência a queda de cabelo acontece?

Nos grandes estudos clínicos com análogos do GLP-1 para obesidade, a queda de cabelo foi relatada por cerca de 3% a 6% dos pacientes, contra aproximadamente 1% no grupo placebo. Ela aparece mais nos grupos que perderam mais peso e é mais frequente em mulheres.

Isso reforça a ideia de que o fator principal é o emagrecimento em si, e não a substância. O mesmo fenômeno é observado há décadas após cirurgia bariátrica e dietas muito restritivas, antes mesmo de existirem as canetas emagrecedoras.

A partir de quanto de perda de peso a queda de cabelo aparece?

Não existe um número exato, mas o risco aumenta quando a perda de peso é rápida e expressiva, especialmente:

  • perda acima de 10% a 15% do peso corporal em poucos meses;

  • ritmo sustentado acima de 1 kg por semana;

  • ingestão alimentar muito reduzida, principalmente de proteínas, algo comum com as canetinhas.

Por isso, o acompanhamento não deve focar apenas no número da balança. A velocidade da perda e a qualidade da alimentação durante o tratamento fazem diferença direta na saúde do cabelo.

O que é o eflúvio telógeno?

O tipo de queda mais associado às canetas emagrecedoras é o eflúvio telógeno. Para entender, é preciso conhecer o ciclo do fio:

  • Fase anágena (crescimento): dura de 2 a 7 anos. Normalmente, cerca de 85% a 90% dos fios estão nela.

  • Fase catágena (transição): dura poucas semanas.

  • Fase telógena (repouso e queda): dura cerca de 3 meses. Ao final, o fio cai e é substituído por um novo.

Quando o organismo passa por um estresse importante, como perda de peso rápida, restrição calórica, cirurgia, febre alta, infecção ou parto, muitos fios saem da fase de crescimento ao mesmo tempo e entram em repouso. Cerca de 2 a 4 meses depois, esses fios caem juntos.

  • "Então é por isso que quando eu tive meu bebê eu comecei a perder o cabelo?" Sim! E é pelo mesmo motivo quem emagrece muito rápido também tem queda de cabelo.

Características típicas do eflúvio telógeno:

  • queda difusa, no couro cabeludo todo, sem falhas localizadas;

  • muitos fios no travesseiro, no banho e na escova;

  • os fios caídos costumam ter uma pequena "bolinha" branca na raiz;

  • não causa calvície definitiva: o folículo continua vivo.

Na maioria dos casos, a queda diminui em 3 a 6 meses e o cabelo volta a crescer, desde que o gatilho seja controlado. Como o cabelo cresce cerca de 1 cm por mês, a recuperação completa do volume pode levar de 6 a 12 meses.

Deficiência de micronutrientes: o fator que mais podemos corrigir

Ao reduzir o apetite, as canetas emagrecedoras também reduzem a ingestão de vitaminas, minerais e proteínas. O folículo piloso é uma das estruturas de multiplicação celular mais intensa do corpo e sente rapidamente essa falta. As principais deficiências que devem ser investigadas e corrigidas são:

Proteínas: a baixa ingestão proteica é uma das causas mais importantes de queda durante o emagrecimento. Também está ligada à perda de massa muscular, outro ponto de atenção no uso de análogos do GLP-1.

Ferro: a ferritina baixa, mesmo sem anemia, está associada à queda de cabelo, especialmente em mulheres que menstruam. A ferritina é um marcador de reserva de ferro, mas também é uma proteína inflamatória, ou seja, ela vai aumentar em processos inflamatórios, por isso a interpretação do exame pode ser difícil para quem não é um profissional da área.

Vitamina D: a deficiência é muito comum, especialmente em quem está acima do peso e após cirurgia bariátrica, e está associada a diferentes tipos de alopecia.

Zinco: importante para a síntese de queratina e a renovação celular do folículo.

Vitamina B12 e ácido fólico: a deficiência pode acontecer com a redução da ingestão e é mais frequente em quem usa metformina, medicamentos para gastrite, vegetarianos e pessoas com problema de absorção de nutrientes.

Função da tireoide: disfunções da tireoide como hipotireoidismo e hipertireoidismo causam queda de cabelo e devem ser descartados.

Atenção à suplementação por conta própria: biotina em altas doses raramente ajuda quem não tem deficiência e pode alterar a leitura de exames de tireoide e outros hormônios. Excesso de vitamina A e de selênio pode, inclusive, provocar queda de cabelo. O ideal é suplementar apenas o que foi identificado em exame, com orientação médica.

Como prevenir a queda de cabelo durante o tratamento

  • Evite perdas de peso muito rápidas: o ajuste gradual da dose ajuda nisso.

  • Priorize proteína em todas as refeições, mesmo com pouco apetite.

  • Faça exames laboratoriais antes e durante o tratamento.

  • Mantenha treino de força, que ajuda a preservar a massa muscular e melhora o estado nutricional como um todo.

  • Não interrompa o tratamento por conta própria: o eflúvio telógeno é temporário, e a decisão sobre ajustar dose ou ritmo deve ser feita com o seu médico.

Sinais de alarme: quando a queda de cabelo pode ser outra coisa

Nem toda queda de cabelo durante o uso de canetas emagrecedoras é eflúvio telógeno. Procure avaliação médica se notar:

  • Falhas redondas ou áreas sem cabelo bem delimitadas (pode indicar alopecia areata).

  • Vermelhidão, descamação, dor, ardor, coceira intensa ou feridas no couro cabeludo.

  • Áreas lisas e brilhantes, sem os "poros" dos fios, que podem indicar alopecias cicatriciais, nas quais o folículo é destruído de forma permanente e o diagnóstico precoce é essencial.

  • Recuo da linha frontal do cabelo ou perda das sobrancelhas.

  • Afinamento progressivo no topo da cabeça ou na risca, que sugere alopecia androgenética e tem tratamento específico.

  • Em mulheres, queda associada a acne, aumento de pelos no rosto ou menstruação irregular, que pode indicar alterações hormonais.

  • Queda que dura mais de 6 meses ou que continua piorando mesmo com peso estável.

  • Queda de pelos do corpo, alterações nas unhas, cansaço intenso, febre ou outros sintomas sistêmicos.

Nesses casos, a investigação vai além do emagrecimento e pode exigir avaliação médica especializada.

Conclusão

As canetas emagrecedoras podem, sim, estar associadas à queda de cabelo, mas quase sempre de forma indireta, temporária e reversível, pelo eflúvio telógeno causado pela perda de peso rápida e pelas deficiências nutricionais. Com acompanhamento médico, exames periódicos, ingestão adequada de proteínas e correção das deficiências, é possível emagrecer com saúde e reduzir muito esse risco.

O tratamento com análogos do GLP-1 deve sempre ser individualizado e acompanhado por um médico. Nunca use canetinhas sem prescrição ou de origem desconhecida.

Dr. Patrick Michailoff, médico, CRM-RS 48524 | Especialista titulado pela AMB em Clínica Médica RQE 45160 | Especialista titulado pela AMB em Medicina do Esporte RQE 49028. Atendimentos presenciais em Erechim/RS ou por teleconsulta.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.

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